Gume

Joaquina, filha do Tiradentes

Maria José de Queiroz

Se em "Como me contaram... fábulas historiais" Maria José de Queiroz compõe um mosaico de histórias, pequenas narrativas e poemas em que se costuram casos e pertences mineiros, em "Joaquina, filha do Tiradentes", 1987, a construção desse mosaico concentra-se no entrecruzamento da ficção com o fio temático do acontecimento histórico da Inconfidência. A personagem Joaquina é apresentada a partir da voz de uma romancista-historiadora transitando entre o registro da História e a invenção livre engendrada pela fabulação. Suas atividades de bordadeira, costureira e copista espelham o trabalho de corte e costura de textos e a atividade da enunciadora do discurso em sua tarefa de construir de viés uma história entremeada de fato e invenção. Ao privilegiar nesse romance a História, a romancista busca recompor, com o maior grau de verossimilhança possível, os contornos históricos do século 18, conjugando-os com a composição de uma vida ficcional para Joaquina, a filha bastarda do herói-mártir da Inconfidência Mineira Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Ao fazer falar uma voz que a História "nem se lembrou de esquecer", como afirmou Carlos Drummond de Andrade em um poema dedicado a Joaquina, a romancista promove no texto uma série de convergências entre os registros da História e a invenção, cujo resultado é um texto de requintada orquestração.

da Open Library

editora
Marco Zero
ano da edição
1987
formato
outro
páginas
297

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autor

Maria José de Queiroz

Maria José de Queiroz

Brasil

Entre o ensaio e a ficção

"É preciso esclarecer: sou uma estudiosa. Tenho passado grande parte da minha vida nas bibliotecas e nas salas de aula. Concederam-me até o privilégio de permanecer, trancada à chave, durante o almoço, em Coimbra, na sala de leitura da biblioteca da Universidade, em Frankfurt, na Deutsche Bibliotek, e, em Paris, na Bibliothèque de la Sorbonne. Vivo numa torre de papel. Entenda-se: não de marfim. Ainda assim, longe dos lugares onde se decide a nomeada do best seller. Vivo para os livros, não dos livros. Digo que tenho cinco leitores. Para minha surpresa, sempre aparece quem se declare meu sexto leitor. É para ele que escrevo; os demais são cativos. Incluo-me, portanto, entre os autores de 'imensa minoria'. Não que escreva 'difícil'. A clareza é a polidez do escritor. E para não distanciar-me da rua nem do povo, freqüento o humano, o demasiadamente humano: o amor, a droga, a loucura, a violência, a prisão, a comida, o automóvel, o tango... Esses, os meus temas. Tratei de humilhados e ofendidos, de excluídos e de minorias. Escrevi extensamente sobre o índio e sobre o negro, sobre os judeus, a mulher e o espaço urbano, o exílio e a pobreza. Por que não tenho mais audiência?...

O ensaio é a minha forma natural de expressão, pois sou professora, professora de literatura. Mas como me dirijo, na página escrita, ao leitor comum, varro do texto o jargão catedrático. E... principalmente, não dou respostas. Deixo isso para os filósofos. Tento, ensaio (aí está) explicar, de forma acessível, o assunto abordado. Ao modo de Montaigne, o autor dos Ensaios, guia-me o acaso. E escrevo até que julgue ter levantado um número suficiente de questões. Claro que não esgoto o assunto. Foi o que fiz ao falar do exílio e dos exilados: voltei aos hebreus, cheguei aos dias de hoje, mas não esgotei o repertório da infâmia. Ensaiei. Apenas isso.

Nada existe de mais grato aos sentidos e à inteligência do escritor que escrever. Mas, também, nada mais terrível, nem mais angustiante. Quando se escreve ensaio – veículo natural do estudo, apto à análise de interesse e mérito literário, sociológico ou filosófico – escolhe-se, antes de enfrentar a página branca, o tema a abordar. No caso da ficção, nem sempre isso acontece. Parte-se de um pretexto: uma notícia na imprensa, um episódio subitamente resgatado pela memória, um incidente que desperte nossa atenção sem motivo claro, plausível.

A verdade verdadeira é que, grato ou angustiante, o ato da criação nos redime das misérias do cotidiano. Por isso, e muito mais, estou pensando em deixar o ensaio e instalar-me, mala e cuia, na ficção. Adeus notas de rodapé, citações, índices, prefácios, posfácios, bibliografias exaustivas... Viva a criação."

Maria José de Queiroz

Fonte: http://www.klickescritores.com.br/mjqueiroz00.html

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