Gume

Guariroba em cinemascope: cordel eletrônico

Cardan Dantas

A mesma outra face: o fácil (simples) como a maneira mais prática de explicar o difícil. A estrutura de um roteiro cinematográfico, do âmbito do qual as palavras saltam e se movimentam projetando imagens na mente do leitor. Palavras que não se acomodam no leito branco do papel, mas, ao contrario, emana a sonoridade da própria intenção e ziguezagueiam na pagina da mesma forma que as contradições perambulam pelo dorso da existência. A sonoridade e o lirismo norteiam a narrativa, de tal forma, que o trágico se reveste de uma doçura áspera como a rapadura, mas capaz de tornar prazeroso o drama da infância infeliz e de dois homens que transitam na defasagem existente entre a intenção e o gesto. Não o prazer de degustar a infelicidade, mas de sorver a dureza sem a amargura do desânimo e da desesperança. O mal e o bem se digladiam sem derramamento de sangue. Cardan parece entender este confronto como algo inerente ao trajeto do homem na superfície do planeta. Para escapar à pugna (não somente aquela com o Vigário e rival no amor de Santinha, mas à sua própria luta interior), padre Guariroba refaz-se em outra dimensão, decolando numa bicicleta e fazendo brotarem asas que o conduzem ao céu. Realismo fantástico é um rótulo. Fantástico é a vida. Cardan revela amplo entendimento disto. Ao tornar livre a forma da narrativa, ele permite que os personagens movimente-se em vários ângulos e forjem, eles próprios, a maneira mais simples de escapar da morte e da inércia.

Impedido de amar na terra, padre Guariroba voa para amar no céu Soul realismo? Prefiro dizer imaginação e amor, apesar das dores que ainda perpassam a existência.

Cordel, enfim, ou chame do que quiser.

Béu Machado 1970

da Open Library

ano da edição
2006
formato
outro
páginas
142
ISBN
9788586268526

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autor

CD

Cardan Dantas