A literatura encarcerada: ensaio
Ao refletir sobre autores e suas produções literárias na prisão, Queiroz elabora uma série de estudos sobre a literatura do cárcere. Nesse projeto, a escritora se detém no estudo de autores que "em prisão de corpos", se encarregam de criar "subterfúgios de liberdade" por intermédio da literatura. De uma galeria quase macabra, a escritora analisa memórias, cartas, confissões, libelos, denúncias e manifestos, avalia que tais documentos esbarras em censura, em sigilo e em questões de segurança nacional, o que acaba por não conceder a seus escritores a palavra. Além de grifar a fortaleza do espírito humano, esses documentos introduzem o leitor no território da Justiça e do Direito. A literatura do cárcere permite, pois, um olhar sobre a realidade, via ficção. É assim que, arando campos interdisciplinares, Queiroz busca criar um vínculo entre a produção do artista e o seu lugar na sociedade. Um encadeamento parece, então, ser traçado entre autores: cria-se uma relação, aparentemente díspar, por exemplo, entre os escritos bíblicos de Paulo de Tarso e as memórias de Graciliano Ramos. A inteligência como capacidade de adaptação às circunstância marca esses "habitantes de aquários", essas "aranhas fechadas num frasco", presos em "sarcófagos de cimento e ferro" e em "submarinos em expedição".
da Open Library
- editora
- Civilização Brasileira
- ano da edição
- 1981
- formato
- outro
- páginas
- 163
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autor

Maria José de Queiroz
Brasil
Entre o ensaio e a ficção
"É preciso esclarecer: sou uma estudiosa. Tenho passado grande parte da minha vida nas bibliotecas e nas salas de aula. Concederam-me até o privilégio de permanecer, trancada à chave, durante o almoço, em Coimbra, na sala de leitura da biblioteca da Universidade, em Frankfurt, na Deutsche Bibliotek, e, em Paris, na Bibliothèque de la Sorbonne. Vivo numa torre de papel. Entenda-se: não de marfim. Ainda assim, longe dos lugares onde se decide a nomeada do best seller. Vivo para os livros, não dos livros. Digo que tenho cinco leitores. Para minha surpresa, sempre aparece quem se declare meu sexto leitor. É para ele que escrevo; os demais são cativos. Incluo-me, portanto, entre os autores de 'imensa minoria'. Não que escreva 'difícil'. A clareza é a polidez do escritor. E para não distanciar-me da rua nem do povo, freqüento o humano, o demasiadamente humano: o amor, a droga, a loucura, a violência, a prisão, a comida, o automóvel, o tango... Esses, os meus temas. Tratei de humilhados e ofendidos, de excluídos e de minorias. Escrevi extensamente sobre o índio e sobre o negro, sobre os judeus, a mulher e o espaço urbano, o exílio e a pobreza. Por que não tenho mais audiência?...
O ensaio é a minha forma natural de expressão, pois sou professora, professora de literatura. Mas como me dirijo, na página escrita, ao leitor comum, varro do texto o jargão catedrático. E... principalmente, não dou respostas. Deixo isso para os filósofos. Tento, ensaio (aí está) explicar, de forma acessível, o assunto abordado. Ao modo de Montaigne, o autor dos Ensaios, guia-me o acaso. E escrevo até que julgue ter levantado um número suficiente de questões. Claro que não esgoto o assunto. Foi o que fiz ao falar do exílio e dos exilados: voltei aos hebreus, cheguei aos dias de hoje, mas não esgotei o repertório da infâmia. Ensaiei. Apenas isso.
Nada existe de mais grato aos sentidos e à inteligência do escritor que escrever. Mas, também, nada mais terrível, nem mais angustiante. Quando se escreve ensaio – veículo natural do estudo, apto à análise de interesse e mérito literário, sociológico ou filosófico – escolhe-se, antes de enfrentar a página branca, o tema a abordar. No caso da ficção, nem sempre isso acontece. Parte-se de um pretexto: uma notícia na imprensa, um episódio subitamente resgatado pela memória, um incidente que desperte nossa atenção sem motivo claro, plausível.
A verdade verdadeira é que, grato ou angustiante, o ato da criação nos redime das misérias do cotidiano. Por isso, e muito mais, estou pensando em deixar o ensaio e instalar-me, mala e cuia, na ficção. Adeus notas de rodapé, citações, índices, prefácios, posfácios, bibliografias exaustivas... Viva a criação."
Maria José de Queiroz
Fonte: http://www.klickescritores.com.br/mjqueiroz00.html
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